Quando a verdade não ameaça, ela vira espetáculo

Há algo profundamente revelador no fato de documentos envolvendo crimes extremos, redes de abuso e figuras poderosas estarem vindo a público — sem que nada aconteça.

Não é coragem.
Não é arrependimento.
Não é transparência.

É demonstração de poder.

Durante anos, vendeu-se a ideia de que a exposição seria suficiente para produzir justiça. Hoje, o que se vê é o oposto: a verdade, quando liberada de forma controlada, fragmentada e sem consequência, deixa de ser ameaça e passa a ser ferramenta de gestão da opinião pública.

O escândalo não assusta mais.
Ele cansa.

E esse cansaço não é efeito colateral. É objetivo.

O mais perturbador não é o que foi revelado.
É o fato de haver absoluta certeza de que se pode revelar.
Não por coragem — mas por impunidade.
Não por verdade — mas por desprezo.

Quando o crime vira nota de rodapé e a vítima vira estatística, o rosto que aparece não é o do escândalo.
É o de quem sabe que não será tocado.

Essa é a pedagogia silenciosa do poder: expor sem punir, mostrar sem responsabilizar, revelar sem desdobrar. A mensagem é clara — existem pessoas fora do alcance de qualquer sistema de justiça. Não importa a gravidade do crime. Não importa a quantidade de provas. Não importa o dano causado.

A normalização do inaceitável não acontece de uma vez. Ela é construída em camadas. Primeiro o choque. Depois a repetição. Em seguida o cansaço. Por fim, a indiferença. O horror vira ruído. A indignação vira rotina. A justiça vira conceito abstrato.

Enquanto isso, o núcleo real de poder permanece intacto. Executores caem. Intermediários desaparecem. Mas o topo — político, financeiro, institucional — segue operando, influenciando, decidindo, protegido por um pacto tácito de silêncio e imunidade.

A pergunta relevante já não é “por que isso veio a público agora?”.
A pergunta correta é: o que está sendo ensinado quando tudo vem à tona e nada acontece depois?

Está sendo ensinado que a verdade, sozinha, não liberta.
Que documentos não bastam.
Que provas não garantem consequência.
E que a justiça, quando confronta poder de verdade, simplesmente não é acionada.

Não participaremos desse teatro.
Não trataremos revelação como catarse.
Não confundiremos publicidade com justiça.

Porque quando crimes contra inocentes são expostos sem responsabilização, isso não representa avanço civilizatório. Representa algo muito mais grave: a institucionalização da impunidade.

E quando uma sociedade aceita isso como normal, o escândalo deixa de ser exceção.
Ele vira método.

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  • Inês Theodoro

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