O Brasil que perde suas crianças no meio do caminho

Mais de 7.700 crianças desapareceram em apenas quatro meses.
Quem está falhando — e quem está se beneficiando desse silêncio?

Entre janeiro e abril do ano passado, 7.731 crianças desapareceram no Brasil.
Nos últimos quatro anos, o número ultrapassa 90 mil registros, com cerca de 34 mil ainda sem qualquer paradeiro conhecido. Isso equivale a 57 crianças sumindo todos os dias — uma a cada 25 minutos.

Esses não são “casos isolados”.
Isso é um sistema em funcionamento.

E quando um sistema tão monstruoso funciona por tanto tempo, a pergunta certa não é “o que está dando errado?”, mas sim:
quem está garantindo que ele continue funcionando?


Um crime que só cresce onde o Estado se omite

Desaparecimento infantil não nasce do nada. Ele se alimenta de um tripé perverso:
pobreza extrema, ausência do Estado e impunidade estrutural.

As vítimas têm perfil conhecido: crianças de regiões vulneráveis, famílias desassistidas, comunidades onde o poder público aparece apenas em período eleitoral. Onde não há escola em tempo integral, proteção social, conselho tutelar estruturado ou presença contínua do Estado, o crime entra com método, dinheiro e logística.

E entra fácil.

O tráfico humano e infantil é hoje um dos crimes mais lucrativos do mundo — e um dos menos punidos no Brasil. Não exige grandes carregamentos, não chama atenção como o tráfico de drogas e, na prática, raramente chega ao fim da cadeia criminosa.

Quem sequestra quase nunca é quem manda.
E quem manda quase nunca é investigado.


Vigilância para multar, não para salvar

Vivemos cercados por câmeras, sensores, rastreamento digital, reconhecimento facial, celulares geolocalizados, bancos de dados e inteligência artificial. O discurso oficial é de modernização. A realidade é outra.

A criança some hoje.
O protocolo começa amanhã.
O alerta demora.
Os sistemas não conversam.
As informações se perdem.
E o tempo — que deveria ser tratado como emergência absoluta — vira papel, despacho e fila.

Tecnologia sem vontade política não protege ninguém.
Ela apenas registra o fracasso depois.


Por que essas redes nunca são destruídas?

Porque ninguém enfrenta o que realmente sustenta o crime.

Essas organizações não sobrevivem sem:

  • Corrupção ativa ou tolerada
  • Vazamento de informações
  • Fronteiras frágeis e mal fiscalizadas
  • Plataformas digitais pouco responsabilizadas
  • Uma cadeia de silêncio que começa localmente e sobe até onde não se pode tocar

Não é incompetência pura.
É conivência estrutural — às vezes por medo, às vezes por lucro, quase sempre por covardia institucional.

Quando facções crescem, dominam territórios e operam por anos sem serem desmontadas, isso não é falha pontual. É decisão política disfarçada de incapacidade.


O nome disso é crise. E ela é moral.

Desaparecimento infantil não é estatística.
É sequestro potencial.
É exploração potencial.
É morte social — e, em muitos casos, física.

Um país que aceita 34 mil crianças desaparecidas como “número alto” perdeu o senso de urgência. E um Estado que não trata isso como prioridade máxima fracassou na sua razão de existir.

Justiça, aqui, não significa discursos emocionados nem campanhas pontuais. Justiça exige:

  • Força-tarefa nacional permanente, com autonomia e recursos
  • Banco de dados único e integrado, em tempo real
  • Investigação automática imediata, sem burocracia
  • Rastreamento digital ágil com autorização judicial rápida
  • Responsabilização criminal de quem atrasa, omite ou encobre
  • Controle efetivo da internet, inclusive responsabilizando plataformas
  • Proteção social antes do desaparecimento, não só depois do trauma

Sem isso, qualquer pronunciamento oficial é apenas ruído.


A pergunta que ninguém quer responder

A pergunta não é mais “por que isso acontece?”.
Essa já foi respondida.

A pergunta real é:
quem se beneficia da continuidade desse horror?

Porque onde um crime cresce de forma organizada, alguém está ganhando — dinheiro, poder ou silêncio.

E enquanto esses nomes não forem expostos, investigados e punidos, o Brasil continuará enterrando crianças sem nem saber onde estão seus corpos.

Isso não é tragédia inevitável.
É escolha.

.http://jornalfactual.com.br

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  • Inês Theodoro

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