O APAGÃO SILENCIOSO DOS CARTÓRIOS DIGITAIS

Como a fé pública brasileira foi terceirizada para servidores privados — sem debate, sem auditoria e sem controle social

Não houve manchete.
Não houve audiência pública.
Não houve debate nacional.

Enquanto o país discutia política, inflação e escândalos de sempre, algo estrutural aconteceu no silêncio: a fé pública — base da segurança jurídica brasileira — migrou quase integralmente para sistemas digitais privados, operados por empresas que ninguém elegeu, ninguém fiscaliza de forma independente e quase ninguém conhece.

Cartórios de registro civil, imóveis, notas e protestos passaram a operar em plataformas digitais centralizadas, muitas delas terceirizadas, onde hoje estão armazenados dados extremamente sensíveis da vida dos brasileiros:

  • compras e vendas de imóveis
  • heranças e inventários
  • procurações
  • divórcios
  • testamentos
  • registros de nascimento e óbito

Em resumo: a vida jurídica inteira do cidadão.

E a pergunta central — ausente de propagandas institucionais e discursos oficiais — é simples e inquietante:

Quem controla os sistemas que controlam a fé pública?


A DIGITALIZAÇÃO NÃO FOI O PROBLEMA — A OPACIDADE FOI

A digitalização, por si só, é necessária.
Ela agiliza processos, reduz filas e moderniza serviços.

O problema começa quando:

  • o Estado abre mão da infraestrutura,
  • terceiriza o armazenamento e o processamento,
  • e trata tudo isso como detalhe técnico, não como decisão política.

Hoje, muitos cartórios dependem totalmente de:

  • softwares proprietários
  • servidores privados
  • contratos pouco transparentes
  • integrações que não passam por auditoria pública

Trocar o sistema, em muitos casos, é impossível sem paralisar o serviço.

Ou seja: o cartório continua sendo público por função — mas tornou-se privado por dependência tecnológica.


DADOS QUE VALEM OURO (E PODER)

Esses sistemas não guardam apenas documentos.
Eles concentram padrões de comportamento jurídico e patrimonial:

  • quem compra imóveis
  • quem herda mais
  • onde há maior volume de disputas
  • quais regiões movimentam mais patrimônio
  • quais tipos de contratos predominam

Em qualquer país que trate dados com seriedade institucional, isso seria classificado como infraestrutura crítica nacional.

Aqui, virou:

  • contrato administrativo
  • cláusula técnica
  • assunto restrito a especialistas

Sem debate público.
Sem transparência real.
Sem auditoria independente permanente.


O RISCO NÃO É HIPOTÉTICO

Não estamos falando de “e se”.

Estamos falando de:

  • falhas sistêmicas
  • indisponibilidades recorrentes
  • dependência de poucos fornecedores
  • risco de vazamento
  • risco de manipulação
  • risco real de apagão digital

Se um grande sistema cair — ou for comprometido — não será apenas um site fora do ar. Será:

  • o registro de propriedades
  • a validade de atos jurídicos
  • a segurança de contratos
  • a confiança institucional

Sem fé pública, não há Estado funcional.


QUEM FISCALIZA O FISCAL?

Cartórios fiscalizam atos jurídicos.
Mas quem fiscaliza:

  • o código-fonte?
  • os backups?
  • os acessos administrativos?
  • os contratos de hospedagem?
  • a governança dos dados?

Hoje, a resposta honesta é: quase ninguém de forma estruturada e contínua.

O controle é fragmentado, técnico, muitas vezes terceirizado — e distante do olhar da sociedade.


O SILÊNCIO É CONVENIENTE

Por que esse tema não ocupa espaço na grande mídia?

Porque:

  • é técnico demais para manchetes fáceis
  • não rende polarização imediata
  • envolve interesses cruzados
  • expõe uma fragilidade estrutural do Estado

Mas é justamente por isso que é perigoso.

O poder moderno não precisa de escândalo.
Ele opera melhor no silêncio.


A PERGUNTA QUE PRECISA ECOAR

A fé pública brasileira não desapareceu.
Ela foi terceirizada, digitalizada e obscurecida.

Sem debate.
Sem voto.
Sem assinatura política clara.

E a pergunta que fica — e que precisa ser feita em voz alta — é esta:

Estamos modernizando o Estado ou apenas transferindo seu coração para servidores que não respondem à sociedade?

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  • Inês Theodoro

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