A indústria brasileira entrou em 2026 mergulhada em um paradoxo inquietante. De um lado, os dados oficiais mostram alta pontual no faturamento. Do outro, o emprego industrial cai pelo terceiro mês consecutivo. E, no pano de fundo desse cenário, um movimento silencioso se intensifica: mais de 200 indústrias brasileiras já transferiram parte da produção para o Paraguai.
O fenômeno não é isolado, nem casual. Ele revela uma mudança estrutural no mapa produtivo da América do Sul — e expõe, sem maquiagem, o peso do chamado Custo Brasil.
Faturamento sobe, mas o trabalhador some da equação
Os números da Confederação Nacional da Indústria indicam que o faturamento da indústria de transformação apresentou crescimento em novembro de 2025. À primeira vista, isso poderia sugerir retomada.
Mas a realidade é outra.
No mesmo período, o emprego formal industrial caiu novamente. É o terceiro mês consecutivo de retração. Ou seja: a indústria vende, mas não contrata. Em alguns casos, demite.
Esse comportamento desmonta a narrativa de recuperação sólida. O que existe, na prática, é um setor operando com mais eficiência, menos gente, menos investimento produtivo e mais cautela.
Enquanto isso, as fábricas mudam de país
Paralelamente, cresce o número de empresas brasileiras que instalam unidades produtivas no Paraguai, principalmente sob o regime de Maquila.
Nesse modelo, as empresas:
- Importam insumos sem impostos
- Produzem com custo operacional muito menor
- Pagam cerca de 1% de imposto sobre o valor agregado
- Exportam quase toda a produção
Hoje, a maioria das empresas que operam nesse regime no Paraguai é de origem brasileira. São mais de 200 indústrias atuando em setores como:
- Têxtil
- Autopeças
- Plásticos
- Bens de consumo
- Alimentos
Grande parte dessa produção volta para o próprio mercado brasileiro.
Ou seja: o produto é brasileiro, o capital é brasileiro, o consumo é brasileiro — mas o emprego não é mais.
O elo entre os dois fenômenos
É aqui que a contradição se explica.
A indústria brasileira consegue manter ou até elevar o faturamento porque parte da produção ocorre fora do país, com custos muito menores. Isso preserva margens, mas retira vagas do mercado de trabalho nacional.
O faturamento sobe.
O emprego cai.
A produção continua — só que em outro território.
Esse deslocamento não aparece diretamente nas estatísticas de emprego do Brasil, mas seus efeitos são sentidos no chão de fábrica, nos sindicatos e nas cidades industriais.
O peso do Custo Brasil
Empresários são diretos: produzir no Brasil custa caro.
Entre os fatores mais citados:
- Juros elevados
- Sistema tributário complexo
- Encargos trabalhistas altos
- Insegurança regulatória
- Burocracia
Enquanto isso, países vizinhos oferecem simplicidade, previsibilidade e custo menor.
O resultado é um redesenho da geografia industrial: o Brasil permanece como mercado consumidor e centro financeiro, enquanto parte da produção migra para onde é mais barato produzir.
Quem ganha e quem perde
Ganha:
- O Paraguai, que atrai investimentos e empregos industriais
- As empresas, que reduzem custos e mantêm competitividade
Perde:
- O trabalhador brasileiro
- As cidades industriais
- A base produtiva nacional
A indústria não está desaparecendo. Ela está mudando de endereço.
O alerta que os números estão gritando
O Brasil vive hoje uma situação delicada:
- Faturamento industrial não garante empregos
- Crescimento não se traduz em renda
- Competitividade é buscada fora do país
Se esse movimento continuar, o país corre o risco de se tornar cada vez mais um mercado consumidor e cada vez menos um centro produtor.
Conclusão
A indústria brasileira não está em colapso.
Mas também não está saudável.
Ela está sobrevivendo através da migração, da automação e da redução de postos de trabalho.
O faturamento sobe.
O emprego cai.
As fábricas atravessam a fronteira.
E o Brasil precisa decidir se quer continuar assistindo esse processo — ou se quer disputar novamente o direito de produzir dentro do próprio território.







