Pesquisa do Data Favela revela que segurança, moradia e saúde seguem como prioridades nas comunidades, enquanto bilhões em recursos públicos avançam lentamente, de forma desigual e distante da realidade dos moradores
Uma pesquisa nacional do Data Favela, realizada com 4.471 moradores de favelas em todo o Brasil, escancara uma realidade que persiste há décadas: segurança, moradia digna e acesso à saúde continuam sendo as principais urgências de quem vive nas periferias urbanas. O levantamento, feito entre os dias 11 e 16 de dezembro de 2025, ouviu pessoas maiores de 18 anos em comunidades de todas as regiões do país e reforça um diagnóstico conhecido — mas ainda pouco enfrentado de forma estrutural.
Segundo os dados, 31% dos entrevistados apontam a moradia como principal prioridade, seguida por saúde (22%) e segurança, que aparece de forma recorrente associada ao direito de ir e vir sem medo, e não apenas à presença policial. A pesquisa desmonta a ideia de que o problema das favelas é falta de ambição: o que falta, na prática, é política pública que chegue ao território e funcione.
Onde está o dinheiro público destinado às favelas?
Nos últimos anos, governos federais, estaduais e municipais anunciaram bilhões de reais em investimentos voltados às periferias, especialmente por meio de programas de urbanização, habitação e infraestrutura. O discurso oficial fala em inclusão, desenvolvimento social e redução das desigualdades. A realidade, porém, mostra um cenário fragmentado.
O Novo PAC, relançado pelo governo federal, incluiu o eixo “Periferia Viva – Urbanização de Favelas”, com previsão de mais de R$ 4,6 bilhões destinados a obras em comunidades. Os recursos contemplam saneamento básico, drenagem, pavimentação, contenção de encostas, iluminação pública e regularização fundiária.
No papel, trata-se de um pacote robusto. Na prática, moradores relatam obras lentas, interrupções frequentes, projetos que não dialogam com a realidade local e ausência de transparência sobre prazos e valores efetivamente executados. Em muitas comunidades, o anúncio do investimento vira manchete; a entrega, quando ocorre, chega incompleta ou anos depois.
Segurança: muito gasto, pouco resultado
A área da segurança pública é um dos maiores ralos de recursos quando se trata de favelas. Estados investem bilhões em policiamento ostensivo, operações especiais e equipamentos, mas a percepção de segurança entre os moradores permanece baixa.
A pesquisa do Data Favela revela que segurança, para quem vive na favela, não significa mais armas ou mais viaturas, mas sim menos tiroteios, menos confrontos, menos mortes e mais previsibilidade para trabalhar, estudar e circular.
Experiências anteriores, como programas de ocupação policial permanente, mostraram que o foco exclusivo na repressão consome verbas elevadas sem resolver as causas da violência, além de gerar denúncias recorrentes de abusos, violações de direitos e mortes de moradores inocentes. Ainda assim, políticas de segurança seguem priorizando o enfrentamento armado, enquanto investimentos sociais preventivos ficam em segundo plano.
Moradia e saneamento: o básico que ainda falta
Apesar de programas habitacionais e ações pontuais de urbanização, milhões de pessoas seguem vivendo em áreas sem saneamento adequado, coleta regular de lixo, drenagem ou segurança estrutural. O impacto disso vai muito além da estética urbana: falta de saneamento significa mais doenças, maior pressão sobre o SUS e perda de qualidade de vida.
Parte significativa das verbas públicas destinadas à habitação é absorvida por burocracia, desapropriações, contratos mal fiscalizados e obras que não avançam. Enquanto isso, famílias seguem morando em áreas de risco, sujeitas a deslizamentos, alagamentos e tragédias previsíveis — muitas delas anunciadas ano após ano.
Saúde: direito constitucional, acesso desigual
O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores patrimônios sociais do país, mas o acesso nas favelas ainda é marcado por desigualdade. Falta de postos próximos, carência de profissionais, demora em atendimentos e ausência de políticas de saúde preventiva no território são queixas recorrentes.
Embora verbas federais sejam repassadas regularmente para estados e municípios, a aplicação local nem sempre prioriza as áreas mais vulneráveis, e muitas comunidades seguem dependendo de iniciativas pontuais, mutirões ou organizações sociais para suprir lacunas básicas.
O que os dados deixam claro
A pesquisa do Data Favela desmonta narrativas simplistas. O morador da favela não pede privilégio, pede direito. Quer moradia segura, saúde funcionando e segurança que proteja — não que coloque sua vida em risco.
Os dados também apontam para um problema estrutural: o Brasil investe, mas investe mal. O dinheiro público existe, os programas existem, os anúncios são frequentes. O que falta é execução eficiente, participação da comunidade, controle social e transparência real sobre onde e como cada real é gasto.
Conclusão
Enquanto bilhões circulam entre editais, convênios e contratos, as favelas seguem esperando pelo básico. A distância entre o discurso oficial e a vida real continua grande demais. A pesquisa do Data Favela não revela um novo problema — ela apenas confirma, com números, aquilo que moradores denunciam há anos: sem ouvir quem vive no território, nenhuma política pública será suficiente.
A favela já sabe o que precisa. Falta o poder público transformar verba em realidade.








