Cartões, apps e bancos: o dinheiro virou um código que ninguém fiscaliza

Taxas invisíveis, cancelamentos automáticos e bloqueios sem explicação viraram regra — e o cliente ficou sem voz

O dinheiro do brasileiro já não passa mais pelas mãos.
Passa por algoritmos.

Cartões, aplicativos, bancos digitais e sistemas automatizados tomaram conta da vida financeira do país. O discurso é conhecido: praticidade, segurança, inovação. Mas, na prática, o que cresceu foi outra coisa — a assimetria de poder entre instituições financeiras e clientes.

Hoje, milhões de brasileiros não sabem exatamente:

  • quanto estão pagando em taxas
  • por que tiveram um serviço cancelado
  • por que o cartão foi bloqueado
  • com quem falar quando algo dá errado

O dinheiro continua sendo do cidadão.
O controle, não.


Taxas que ninguém vê — mas todo mundo paga

Anuidade disfarçada.
Tarifa embutida.
“Serviço adicional” ativado automaticamente.

As cobranças raramente vêm claras. Estão escondidas em letras miúdas, contratos digitais intermináveis ou notificações que passam despercebidas na tela do celular.

O cliente descobre quando o saldo não bate.
Ou quando o limite some.

Transparência virou exceção.
A regra é a confusão calculada.


Cancelamentos e bloqueios decididos por máquinas

Cartões cancelados “por segurança”.
Contas bloqueadas “por análise de risco”.
Pagamentos negados “por inconsistência”.

Tudo automático.
Tudo sem explicação clara.
Tudo sem prazo.

Quando o sistema decide que você é um risco, não há contraditório.
Não há defesa.
Não há rosto do outro lado.

A lógica é simples:
o algoritmo suspeita — o cliente que prove que é inocente.


Atendimento humano: artigo de luxo

Tentar falar com um banco hoje virou um teste de resistência.

  • Chatbots que não resolvem
  • Telefones que não completam
  • Respostas padronizadas
  • Protocolos que não avançam

O atendimento humano existe — mas está sempre “indisponível no momento”.

O cliente não conversa mais com um gerente.
Conversa com fluxos automáticos programados para não resolver.


Quando o dinheiro vira código, a fiscalização desaparece

O sistema financeiro evoluiu mais rápido do que a capacidade de fiscalização efetiva.

As operações são digitais.
As decisões são automatizadas.
Os critérios são secretos.

O consumidor comum não sabe:

  • por que foi classificado como risco
  • quais dados são usados
  • como contestar uma decisão automática

O dinheiro virou código.
E o código não presta contas.


Não é inovação. É desproteção.

Tecnologia não é o problema.
O problema é usá-la como escudo.

Quando bancos se escondem atrás de sistemas para evitar explicações, atender menos pessoas e transferir o ônus do erro para o cliente, não estamos falando de eficiência — estamos falando de abuso estrutural.

Modernizar não pode significar:

  • menos direitos
  • menos clareza
  • menos acesso
  • menos defesa

Quem controla o sistema que controla o seu dinheiro?

Essa é a pergunta que quase ninguém faz.

Porque enquanto o dinheiro era físico, havia balcão, assinatura, gerente e papel. Agora, tudo acontece em segundos — e desaparece em cliques.

O cliente ficou rápido.
O banco ficou invisível.

E quando algo dá errado, sobra ao cidadão apenas uma certeza:
o sistema sempre sabe — mas nunca explica.

.http://jornalfactual.com.br

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  • Inês Theodoro

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