A ROTA DO ABANDONO NA SAÚDE

Curado no papel

Ele saiu do hospital com uma pasta na mão.
Dentro, exames, uma receita, um encaminhamento e a palavra que deveria significar alívio: alta.

No sistema, estava resolvido.
Na vida real, não.

A alta hospitalar encerra um atendimento — não um tratamento. Mas, para milhares de brasileiros, esse momento marca o início de um vazio silencioso: a transição entre o hospital e a atenção básica que, muitas vezes, não acontece.

O paciente deixa o leito, mas não encontra vaga no posto.
Sai com prescrição, mas não encontra o medicamento.
Recebe encaminhamento, mas não consegue marcar o retorno.

No prontuário, o caso está encerrado.
No corpo, a doença continua.


O dado que não aparece

Os sistemas oficiais de saúde registram:

  • internações
  • procedimentos
  • altas

O que eles não medem é o que vem depois.

Não há indicador nacional que acompanhe se o paciente:

  • conseguiu atendimento na UBS
  • deu continuidade ao tratamento
  • realizou exames de controle
  • teve acesso à medicação prescrita

O cuidado termina onde o formulário acaba.


Profissionais confirmam o gargalo

Na ponta do sistema, médicos e enfermeiros da atenção básica relatam um cenário recorrente: pacientes que chegam meses depois — ou só retornam quando o quadro se agravou.

“Eles não abandonam o tratamento por escolha. Eles não conseguem continuar”, resume um profissional da rede pública ouvido pela reportagem.

Entre a alta e o retorno, há:

  • filas invisíveis
  • agendas fechadas
  • exames represados
  • territórios sem cobertura adequada

É nesse intervalo que o paciente se perde.


Alta não é sinônimo de cuidado

Do ponto de vista administrativo, a alta hospitalar é eficiência.
Do ponto de vista clínico, é apenas uma etapa.

Sem acompanhamento:

  • doenças crônicas descompensam
  • infecções retornam
  • diagnósticos se atrasam
  • sequelas se instalam

O sistema comemora a liberação do leito.
O problema reaparece meses depois — mais grave e mais caro.


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  • Inês Theodoro

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