UNIT: a moeda dos BRICS e a primeira ameaça funcional ao império do dólar desde 1945

Enquanto o Ocidente discute discursos, o Sul Global muda contratos. E o sistema financeiro mundial sente o impacto.


O sistema financeiro global não está sendo transformado em cúpulas, discursos ou declarações simbólicas. Ele está mudando onde sempre mudou: nas transações.

Nos últimos anos, um movimento silencioso vem ganhando força entre as maiores economias emergentes do planeta. Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul — e agora também Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes, Egito e Etiópia — começaram a operar cada vez mais fora do circuito tradicional dominado pelo dólar. O nome desse movimento: desdolarização.

E no centro desse processo surge um conceito que incomoda profundamente o sistema financeiro ocidental: o UNIT, a moeda de liquidação dos BRICS.


O que é o UNIT, afinal?

Ao contrário do que muitos imaginam, o UNIT não nasce como uma moeda de uso popular, como dólar, euro ou real. Ele surge como um instrumento de liquidação internacional, pensado para substituir o dólar nas transações entre países do bloco.

Seu princípio é simples — e revolucionário:

Uma moeda baseada em uma cesta de moedas nacionais e commodities reais, como petróleo, gás, grãos e minerais.

Ou seja, não lastreada em dívida, mas em produção.

Isso quebra o principal pilar do sistema atual: a dependência da dívida americana como garantia global.


Por que isso é histórico?

Desde o acordo de Bretton Woods, em 1944, o dólar se tornou a espinha dorsal do comércio mundial. O planeta inteiro passou a negociar energia, alimentos, tecnologia e crédito usando uma moeda controlada por um único país.

Quem controla a moeda, controla o crédito.
Quem controla o crédito, controla o destino econômico das nações.

O UNIT representa a primeira tentativa concreta, fora do eixo ocidental, de construir um sistema paralelo funcional.

Não é um projeto ideológico.
É uma necessidade estratégica.


O que já está mudando na prática

Antes mesmo de o UNIT existir formalmente como moeda operacional, os BRICS já estão praticando seu princípio:

  • China e Brasil negociando em moedas locais
  • Rússia e Índia fora do dólar
  • Arábia Saudita aceitando outras moedas no petróleo
  • Bancos centrais reduzindo reservas em dólar
  • Criação de sistemas próprios de compensação financeira

Ou seja: o sistema está sendo desmontado peça por peça, sem anúncio oficial.


O verdadeiro medo de Washington

O UNIT não ameaça o dólar diretamente.

Ele ameaça o monopólio.

Quando existe apenas uma moeda dominante, sanções funcionam.
Quando existem alternativas, sanções viram apenas gestos políticos.

O poder do dólar não está em seu papel. Está em sua exclusividade.

E essa exclusividade está sendo quebrada.


A diferença entre o dólar e o UNIT

DólarUNIT
Baseado em dívidaBaseado em produção
Controlado por um paísCompartilhado por blocos
Usado como arma políticaProposto como instrumento técnico
Sustentado por confiançaSustentado por ativos reais

Essa diferença explica por que o projeto incomoda tanto.


O mundo multipolar começa pela moeda

A multipolaridade não nasce em discursos da ONU.
Ela nasce quando um país pode vender, comprar, investir e financiar sem pedir autorização a um sistema estrangeiro.

O UNIT é, antes de tudo, uma ferramenta de soberania.

Não para dominar.
Mas para existir sem permissão.


O dólar vai cair?

Não.

Mas ele deixará de ser absoluto.

E no mundo financeiro, perder a exclusividade é o mesmo que perder o trono.


Conclusão

O UNIT ainda é um projeto em construção.
Mas já é um símbolo.

Símbolo de um mundo que cansou de financiar a própria submissão.
Símbolo de países que decidiram trocar obediência por negociação.
Símbolo de uma transição que não será anunciada — apenas percebida.

O sistema financeiro global não está mudando.

Ele já mudou.

Apenas ainda não terminou de se explicar.

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  • Inês Theodoro

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