Enquanto o debate público se concentra em quem decide a liquidação, a verdadeira disputa ocorre longe dos holofotes: a transferência silenciosa de responsabilidade do banco para o Estado
A liquidação do Banco Master deixou de ser, há alguns dias, uma discussão sobre irregularidades financeiras para se transformar em algo maior — e mais sensível: um embate institucional que desloca o foco do controlador do banco para o próprio Banco Central.
Esse movimento, ainda pouco questionado publicamente, é o ponto central do caso. E talvez o mais relevante.
Quando o foco muda, a história muda
No início, o enredo parecia claro: um banco com problemas graves, uma decisão do Banco Central e a aplicação do rito tradicional de liquidação, com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) aos investidores.
Mas a entrada do Tribunal de Contas da União (TCU), autorizando inspeção em documentos do Banco Central relacionados ao processo, alterou profundamente essa lógica.
Na prática, a pergunta central deixou de ser:
“O Banco Master cometeu irregularidades?”
E passou a ser:
“O Banco Central agiu corretamente ao liquidar o banco?”
Essa inversão é tudo, menos trivial.
O timing que ninguém explica
A liquidação não ocorreu de forma repentina. Os problemas do Banco Master eram conhecidos, acompanhados e monitorados havia meses. Ainda assim, o TCU só decidiu agir após a quebra, e não durante o processo de supervisão.
Essa escolha levanta uma questão incômoda:
por que fiscalizar o procedimento do regulador depois que o banco já caiu?
Não se trata de evitar perdas a investidores — o FGC já cumpre esse papel.
Não se trata de impedir a liquidação — ela já foi decretada.
O movimento só ganha sentido em um cenário: o pós-quebra, quando se discute responsabilidade, danos e consequências jurídicas.
Do CNPJ ao CPF: o ponto mais sensível do caso
O aspecto mais delicado — e menos explorado — está na possibilidade de dissociar a falência do banco da responsabilização pessoal de seu controlador, Daniel Vorcaro.
Ao sinalizar, em despacho, a possibilidade de impedir a venda de ativos durante a análise do caso, o ministro Jonathan de Jesus abriu uma brecha relevante: a de que o banco quebre, mas o patrimônio pessoal do controlador seja preservado, caso se identifiquem falhas formais no processo conduzido pelo Banco Central.
Em termos práticos, o cenário seria este:
- o banco entra em liquidação;
- investidores são ressarcidos pelo FGC;
- e o controlador passa a discutir, na Justiça, indenizações e desbloqueio de bens, alegando erro do Estado.
Não é um desfecho comum em crises bancárias. E exatamente por isso chama atenção.
O precedente que preocupa o mercado
Especialistas ouvidos reservadamente avaliam que o maior risco do caso Master não é financeiro, mas institucional.
Se um controlador consegue, após a quebra:
- judicializar o processo;
- transferir o debate para supostos erros do regulador;
- e preservar patrimônio pessoal;
cria-se um precedente perigoso:
o banco quebra, mas a responsabilidade se dilui.
Isso enfraquece a autoridade do Banco Central, amplia a insegurança jurídica e incentiva disputas pós-colapso que podem se arrastar por anos.
Não por acaso, o mercado reagiu com desconforto — não pela possibilidade de reversão da liquidação, considerada improvável, mas pelo impacto desse tipo de interferência sobre futuras decisões do regulador.
O silêncio que diz muito
Outro elemento chama atenção: o silêncio institucional.
Nem grandes bancos, nem associações do setor, nem entidades representativas do mercado financeiro têm vocalizado críticas abertas. A leitura corrente é de extrema cautela — ou receio de que o caso abra uma caixa-preta ainda maior, envolvendo interesses políticos e institucionais sensíveis.
Enquanto isso, o Banco Central recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu o acesso aos documentos até julgamento do mérito, assumindo o papel de árbitro final do conflito.
O que realmente está em jogo
Mais do que decidir quem pode acessar documentos, o STF terá de responder a uma questão estrutural:
- até onde vai o poder do TCU sobre decisões técnicas do regulador;
- e como preservar a autonomia do Banco Central sem criar zonas de impunidade.
O caso Banco Master já não é apenas sobre um banco que quebrou.
É sobre como o Brasil distribui responsabilidade em crises financeiras.
E a pergunta que permanece, ainda sem resposta clara, é simples e incômoda:
se o banco quebra, os investidores são pagos e o controlador preserva o patrimônio, quem, afinal, foi responsabilizado?
Essa é a pergunta que poucos estão fazendo.
E talvez seja exatamente por isso que ela importa tanto.








