Enquanto os holofotes se voltavam para a crise imediata na Venezuela, a reunião extraordinária da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) revelou algo maior do que um simples debate regional: tratou-se de um movimento estratégico da América Latina para reagir a uma nova mudança de eixo no poder hemisférico.
Convocada por videoconferência e com participação ativa do Brasil, a reunião ocorreu em meio à escalada mais grave da crise venezuelana em anos, após uma ação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. Oficialmente, o encontro discutia a “situação na Venezuela”. Na prática, o que estava em jogo era quem dita as regras no continente americano.
A Venezuela como palco — não como centro
Embora o destino político da Venezuela estivesse no centro do discurso, o pano de fundo era outro. A operação norte-americana rompeu um tabu histórico: a intervenção direta em um país sul-americano sem aval explícito de organismos multilaterais.
Para vários governos da região — inclusive o brasileiro — o problema não foi apenas Maduro, mas o precedente. A mensagem implícita foi clara: se a ação se normalizar, nenhum país da região está completamente imune a pressões semelhantes no futuro.
Brasil: crítica calculada e diplomacia de contenção
A posição brasileira foi cirúrgica. O governo condenou a ação militar, classificando-a como uma violação da soberania venezuelana, mas evitou uma retórica de confronto direto com Washington. Trata-se de uma escolha estratégica: criticar o método sem assumir a defesa do regime.
Ao levar o debate para a CELAC e sinalizar que o tema será tratado também na ONU, o Brasil buscou deslocar a crise do campo da força para o campo do direito internacional — uma tradição histórica da diplomacia brasileira que agora volta ao centro do tabuleiro.
América Latina dividida, mas alerta
A reunião deixou evidente que a região não fala com uma única voz. Países com alinhamento mais próximo aos Estados Unidos defenderam a legitimidade da ação; outros, sobretudo no eixo sul, expressaram preocupação com a escalada militar.
Ainda assim, houve um consenso silencioso: a instabilidade na Venezuela deixou de ser um problema doméstico e passou a ser um fator de risco regional, com potencial de afetar fluxos migratórios, segurança de fronteiras e equilíbrio político interno em diversos países.
O recado indireto aos Estados Unidos
Mesmo sem uma declaração unificada, a CELAC enviou um sinal inequívoco a Washington: a América Latina não aceitará passivamente decisões unilaterais que redesenhem o mapa político da região.
Não se trata de romper com os EUA, mas de reafirmar limites. O continente tenta, mais uma vez, escapar da lógica histórica de ser apenas zona de influência, reivindicando o direito de participar das decisões que afetam seu próprio destino.
Uma crise que redefine o jogo
A reunião da CELAC não resolveu a crise venezuelana — e nem pretendia. Seu verdadeiro significado está no que ela revela: o continente entrou em uma nova fase de tensão geopolítica, onde soberania, recursos estratégicos e influência global voltam ao centro do debate.
A Venezuela é o epicentro momentâneo. Mas o terremoto político é continental.






