Resolução liderada pela CGU expõe fragilidades, pressiona por cooperação internacional e destaca riscos da impunidade em crimes ambientais
O Brasil colocou o combate à corrupção que afeta diretamente o meio ambiente no centro das discussões da Conferência dos Estados-Partes da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (COSP11), ao ter uma resolução aprovada e apresentar soluções digitais voltadas à transparência, rastreabilidade e prevenção de ilícitos ambientais.
A delegação brasileira, liderada pela Controladoria-Geral da União (CGU), utilizou o espaço internacional para defender que crimes ambientais não prosperam isoladamente: eles dependem de redes de corrupção, fragilidades institucionais e da ausência de cooperação entre países.
Corrupção ambiental: o elo invisível do crime climático
Um dos pontos mais sensíveis abordados na conferência foi o reconhecimento de que desmatamento ilegal, garimpo clandestino, tráfico de madeira, fauna e recursos naturais estão diretamente ligados à corrupção em diferentes níveis do poder público e do setor privado.
Autoridades brasileiras destacaram que, sem enfrentar subornos, lavagem de dinheiro e captura institucional, políticas ambientais tendem a fracassar, mesmo quando há legislação robusta. O discurso encontrou eco entre países que enfrentam desafios semelhantes na proteção de florestas, biodiversidade e territórios tradicionais.
Soluções digitais e transparência: avanço ou desafio?
Outro eixo sensível foi a apresentação de ferramentas digitais brasileiras voltadas ao controle de contratos públicos, fiscalização e cruzamento de dados. Embora celebradas como avanço, essas soluções também levantaram debates delicados:
- A assimetria tecnológica entre países ricos e em desenvolvimento
- O risco de exclusão institucional de nações sem infraestrutura digital
- A necessidade de proteção de dados e soberania informacional
O Brasil defendeu que a tecnologia deve ser um instrumento de inclusão e cooperação, não de dependência.
Cooperação internacional: consenso no discurso, entraves na prática
Apesar do consenso sobre a importância da cooperação internacional, a COSP11 expôs um ponto crítico: a lentidão no compartilhamento de informações financeiras, fiscais e bancárias entre países ainda favorece crimes ambientais transnacionais.
Delegações reconheceram que fluxos ilegais de dinheiro continuam encontrando abrigo em paraísos fiscais e sistemas jurídicos frágeis, minando esforços de combate à corrupção ambiental.
Pressão por resultados concretos
A resolução aprovada, liderada pelo Brasil, reforça a necessidade de:
- Integrar políticas anticorrupção e ambientais
- Fortalecer órgãos de controle
- Promover capacitação técnica e troca de informações
- Tratar crimes ambientais como ameaça econômica, social e climática
O desafio agora é transformar compromissos multilaterais em ações efetivas, especialmente em um cenário global de emergência climática e crescente pressão sobre recursos naturais.
O recado de Doha
Ao assumir protagonismo no tema, o Brasil enviou um sinal claro: não há proteção ambiental sem enfrentamento direto da corrupção. A recepção positiva da proposta, no entanto, também evidenciou que o maior obstáculo não está no diagnóstico — mas na disposição política de aplicar as medidas acordadas.








