Brasil e EUA iniciam negociações para encerrar o “tarifaço” americano

Reunião em Washington marca o recomeço do diálogo comercial entre as duas maiores economias do continente

Os governos do Brasil e dos Estados Unidos abriram nesta semana um canal formal de negociações para tentar pôr fim ao chamado tarifaço americano — uma série de tarifas de até 50% impostas por Washington sobre produtos brasileiros desde meados de 2025. A medida havia sido anunciada pelo governo Trump como “proteção à indústria norte-americana”, mas acabou afetando diretamente exportações do agronegócio e da indústria nacional.

O encontro realizado na quinta-feira (16) em Washington, reuniu o chanceler brasileiro Mauro Vieira, o secretário de Estado americano Marco Rubio e o representante comercial dos EUA Jamieson Greer. Segundo fontes diplomáticas, a reunião foi “cordial e produtiva”, abrindo espaço para um possível alívio nas sobretaxas que atingem setores-chave da economia brasileira.


O que está em jogo

As tarifas americanas, conhecidas informalmente como “tarifaço”, atingiram produtos como aço, alumínio, etanol, carne bovina, café e manufaturados. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as medidas já causaram uma perda estimada de US$ 8 bilhões em exportações brasileiras desde julho.

O Brasil reagiu acionando a Organização Mundial do Comércio (OMC) e aplicando tarifas de retaliação sobre fertilizantes e equipamentos agrícolas importados dos EUA. Agora, o governo de Brasília tenta negociar uma saída diplomática antes que a disputa escale.


Negociações e bastidores

Durante a reunião, o chanceler Mauro Vieira defendeu a retomada de uma “agenda positiva”, com foco em comércio, tecnologia e energia limpa. Ele destacou que o Brasil está disposto a “buscar soluções equilibradas”, mas que as tarifas impostas pelos EUA são “injustificadas e desequilibram o comércio bilateral”.

Marco Rubio teria reconhecido o impacto das medidas sobre empresários norte-americanos e afirmou que há “disposição genuína para revisar o pacote tarifário”. A equipe técnica americana propôs criar um grupo bilateral de trabalho com reuniões semanais a partir de novembro.

O Itamaraty informou em nota que “as conversas ocorreram em ambiente construtivo e indicam a disposição de ambos os governos em avançar para uma solução mutuamente benéfica”.


Setores mais afetados

O setor siderúrgico foi o mais prejudicado — com exportações caindo quase 40% nos últimos três meses. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) afirma que “a reversão dessas tarifas é questão de sobrevivência para o setor”.

Também foram afetados produtores de etanol, carne e café. “As tarifas dobraram nossos custos logísticos e praticamente inviabilizaram o envio de café premium aos EUA”, lamentou Cláudio Reis, representante da Associação Brasileira de Exportadores de Café (Abecafé).


Obstáculos políticos

Fontes diplomáticas afirmam que Washington quer incluir na mesa temas mais amplos — como compromissos ambientais, direitos humanos e estabilidade jurídica. Isso pode dificultar o avanço rápido do acordo.

“Não se trata apenas de comércio. Há condicionantes políticas que os americanos estão trazendo para a mesa”, comentou um diplomata brasileiro sob anonimato.

Nos bastidores, fala-se também em uma possível reunião entre Lula e Donald Trump ainda neste ano, durante o G20, para selar um entendimento mais amplo.


Próximos passos

As equipes de comércio exterior dos dois países vão elaborar um mapa de convergência tarifária até o fim de outubro. Caso haja acordo inicial, Washington poderá suspender parcialmente as sobretaxas até janeiro de 2026.

O Senado brasileiro, por sua vez, prepara uma missão oficial aos EUA para pressionar o Congresso americano a apoiar o acordo — com foco na “recuperação da confiança bilateral”.


Análise: o que significa esse movimento

O início das negociações marca um reajuste de rota na política externa brasileira. Após meses de tensão e trocas de declarações duras, a retomada do diálogo com os EUA reforça a percepção de que a diplomacia voltou ao centro da estratégia econômica.

Se bem-sucedidas, as tratativas podem abrir espaço para novos acordos de cooperação em energia, tecnologia e defesa. Caso fracassem, porém, o Brasil pode enfrentar um longo período de instabilidade comercial e pressão sobre exportadores.https://jornalfactual.

WhatsApp Facebook Twitter Email Baixar Imagem
  • Inês Theodoro

    Quem Somos Jornal Factual — Informação limpa. Jornalismo responsável. O Jornal Factual é um veículo digital independente, dedicado à cobertura criteriosa dos acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais do Tocantins e do Brasil. Nascemos com um compromisso claro: entregar informação confiável, apurada e livre de interferências. Nosso trabalho se apoia em três pilares essenciais: Imparcialidade, Ética e Confiabilidade. No Jornal Factual, buscamos ser um ponto de equilíbrio em um ambiente digital carregado de ruído, polarização e desinformação. Somos Factual. Somos jornalismo que respeita você.

    Related Posts

    Nigéria: o massacre não é caos — é método

    Não é guerra tribal.Não é falha cultural.Não é azar geográfico. A destruição prolongada da Nigéria é resultado de escolhas políticas, interesses econômicos e padrões históricos que se repetem sempre nos…

    Sem vacina, sem tratamento e sem tempo: o vírus Nipah expõe a fragilidade do mundo pós-pandemia

    O vírus Nipah, transmitido por morcegos, reacende o alerta sanitário global e expõe a fragilidade do mundo O mundo prometeu que aprenderia. Jurou que estaria preparado. Garantiu que jamais seria…

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    You Missed

    O novo feudalismo digital: como a IA está redesenhando o poder no século XXI

    O novo feudalismo digital: como a IA está redesenhando o poder no século XXI

    Educação financeira entra em campo e chega às famílias do CadÚnico

    Educação financeira entra em campo e chega às famílias do CadÚnico

    Menos agências, mais custos: a matemática perversa do sistema bancário

    Menos agências, mais custos: a matemática perversa do sistema bancário

    Folia com segurança: confira dicas para evitar acidentes com a rede elétrica durante o carnaval

    Folia com segurança: confira dicas para evitar acidentes com a rede elétrica durante o carnaval

    Febre do emagrecimento acende alerta: Anvisa associa canetas emagrecedoras a risco de pancreatite

    Febre do emagrecimento acende alerta: Anvisa associa canetas emagrecedoras a risco de pancreatite

    Queda de QI e crise educacional: por que a geração mais conectada da história está aprendendo menos

    Queda de QI e crise educacional: por que a geração mais conectada da história está aprendendo menos